Famílias de Artistas: A família Holbein I

Numa visita ao Museu Nacional de Arte Antiga para escolher temas para trabalhos da universidade, encontrei uma pintura pela qual fui, imediatamente, cativada. Tratava-se de uma representação da Virgem com o Menino entre anjos e santas, a imagem em destaque deste post, que me atraiu pela beleza do seu detalhe, a vivacidade do colorido e a riqueza da sua iconografia. O seu autor era Hans Holbein, o Velho, não o Jovem, como primeiro pensei. De facto, nessa altura, o nome Hans Holbein apenas remetia, na minha cabeça, para Henrique VIII e para os famosos Embaixadores. Mas esse era o filho, não o pai. Hans Holbein, o Velho, todavia, não merece manter-se na escuridão, ofuscado pelo filho. É a ele e à sua família que vou dedicar os posts desta semana.

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Auto-retrato em ponta de prata, Hans Holbein, o Velho, c. 1516, Musée Condé, Chantilly

Hans Holbein, o Velho foi um dos principais pintores alemães do seu tempo. Nascido em Augsburgo, entre 1460 e 1465, Holbein provinha de uma família de curtidores de origem suíça que se instalou naquela cidade por volta de 1448, e inaugurou uma linhagem de pintores que incluiria o seu irmão Sigmund (c. 1470-1540), pintor e gravador, e os seus dois filhos, Ambrosius (c. 1494-c. 1519) e Hans Holbein, o Jovem (c. 1497-1543), de todos o mais famoso.

A sua formação é mal conhecida, supondo vários autores que ele estudou no atelier do famoso pintor e gravador Martin Schongauer (1448-1491), em Colmar, do qual teria recebido influência da pintura de Rogier van der Weyden, que Schongauer seguira. Provavelmente, viajou pelos Países Baixos, estando em Gand e em Bruges, entrando assim em contacto com obras de vários artistas flamengos, o que se supõe devido ao toque flamengo da sua arte.

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Sagrada Família, Martin Schongauer, 1470, Alte Pinakothek, Munique

Uma das suas primeiras obras conhecidas é a Dormição da Virgem, de cerca de 1489/90, agora em Budapeste, uma doce representação desta cena apócrifa repleta de detalhes, como a alma da Virgem a subir ao céu, os óculos de um dos apóstolos, a caldeirinha de água benta com que S. Pedro a abençoa… Nesta pintura nota-se a influência flamenga, por exemplo, no rico detalhe dos tecidos ou nos corpos, meras massas de roupagens, com anatomia pouco precisa.

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A dormição da Virgem, Hans Holbein, o Velho, c. 1491, Museu de Belas Artes, Budapeste

Uma das suas obras mais famosas é A Paixão Cinzenta, assim chamada devido ao uso quase exclusivo que o artista faz desta cor e da técnica de grisalha. Este conjunto de painéis teria sido feito para um retábulo que enquadrava um crucifixo de madeira da autoria de Gregor Erhart, pertencente ao mosteiro beneditino dos Santos Ulrico e Afra de Augsburgo. Para este edifício, Holbein também pintaria vitrais, mostrando a polivalência do seu talento.

Ecce Homo e Cristo em silêncio, dois painéis da Paixão Cinzenta, Hans Holbein, o Velho, 1494-1500, Staatsgalerie, Estugarda

Vitrais desenhados por Holbein, o primeiro para a igreja dos Santos Ulrico e Afra, Augsburgo, em 1496, o segundo para a catedral de Eichstätt, c. 1505

Casando em 1494 com a filha do pintor Thoman Burgkmair, pai de outro pintor, Hans Burgkmair, Holbein uniu a sua família à destes outros grandes artistas de Augsburgo. Tanto ele como o seu cunhado pintaram vários retábulos para o ciclo das basílicas do mosteiro de Santa Catarina de Augsburgo. Neste conjunto de cinco pinturas, originalmente exposto na sala do capítulo do mosteiro feminino de Santa Catarina, foram representadas as cinco basílicas romanas, literal e figuradamente, ou seja, o edifício e os seus santos patronos. Serviam de local de peregrinação a quem não podia deslocar-se a Roma para visitar as verdadeiras igrejas.

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Basílica de Santa Maria Maior, Hans Holbein, o Velho, 1499, Staatsgalerie Altdeutsche Meister, Augsburgo

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Basílica de São Pedro, Hans Burgkmair, 1501, Staatsgalerie Altdeutsche Meister, Augsburgo

Poderia discorrer longas horas sobre estas pinturas, devido à sua rica iconografia e simbolismo, assim como acerca do papel mecenático das freiras que as encomendaram e do seu convento. Talvez o faça noutra ocasião. Atentemos, por agora, na penúltima das pinturas deste ciclo, a segunda que Holbein para ele pintou, em 1504. A Basílica de S. Paulo Extramuros, representando episódios da vida deste santo, é considerada uma das mais bem conseguidas deste artista. Nota-se nela, quando comparada com a Basílica de Santa Maria Maior, pintada ainda no século anterior, uma enorme evolução. Enquanto o fundo da primeira é um mero céu estrelado, independente das figuras e sem perspectiva, na segunda existe já uma noção de espaço perspéctico, que se integra com a arquitectura dos edifícios representados e com a da própria moldura, simulada. É um novo tipo de pintura que se começa a impor no século XVI, mas que Holben reproduz ainda incipientemente. Um detalhe importante, no painel da conversão de S. Paulo: o retrato de Holbein com os seus dois filhos, para os quais aponta, sem dúvida orgulhoso.

Basílica de S. Paulo Extramuros e detalhe com o auto-retrato de Holbein com os filhos, Hans Holbein, o Velho, 1504, Staatsgalerie Altdeutsche Meister, Augsburgo

Holbein também pintou com o seu irmão, Sigmund Holbein, num enorme retábulo para a igreja dos dominicanos de Frankfurt, representando a árvore de Jessé e a árvore genealógica da ordem dominicana.

De Sigmund não se conhece grande obra, em parte porque muita da que lhe era atribuída foi destruída com a Segunda Guerra Mundial, em parte porque não a assinava. Irmão mais novo de Holbein, aprendeu com ele e com ele trabalhou, até que Hans se viu forçado a abandonar Augsburgo por dívidas, em 1516, indo-se instalar num mosteiro em Isenheim, na Alsácia. Sigmund morreu por volta de 1519, sem ter conhecido grande sucesso.

Sigmund Holbein, Hans Holbein, o Velho, 1512, British Museum, Londres; Cenas da paixão de Cristo, atribuído a Sigmund Holbein, c. 1500, Kunstmuseum, Basileia

Com o virar do século, o tipo de retábulos por que Holbein era conhecido deixou de estar na moda, e outros artistas, como o seu próprio cunhado Burgkmair, começaram a revelar um novo interesse pela influência italiana. Assim, por volta de 1505, os encomendantes de Holbein começaram a rarear. Os retratos tornaram-se, então, no seu novo meio de sustento. Distinguiu-se como um exímio fisionomista, conhecendo-se inúmeros retratos feitos por si, muitos em ponta de prata, como o auto-retrato e o retrato de Sigmund que mostrei. Este seu talento influenciou o filho homónimo, Hans Holbein, o Jovem; algumas das últimas obras do pai chegaram mesmo a ser confundidas com as do filho, como é o caso do retrato de homem de 1522 reproduzido abaixo. No entanto, as dificuldades financeiras aumentavam, até que, como disse, teve de abandonar a sua cidade natal.

Retrato de mulher, c. 1508, National Gallery of Art, Washington; Retrato de um membro da família Weiss, 1522, Städel Museum, Städel

Muitos autores atribuem as dificuldades pecuniárias que marcaram a vida deste pintor à sua recusa em utilizar os elementos renascentistas, mais em voga. De facto, Holbein apenas começou a inovar muito tarde na sua carreira. É em 1512 que podemos notar as primeiras influências italianas na sua obra, mas é no retábulo de S. Sebastião, de 1516, que se nota um maior à vontade na utilização destes novos recursos: Santa Bárbara e Santa Isabel, nos volantes, encontram-se enquadradas por decoração renascentista. Também aqui o pintor se representou com o filho mais novo, atrás dos leprosos no painel de Santa Isabel, e há autores que supõem que ele pode ter tido a sua ajuda, embora não haja provas a esse respeito. Entre 1517 e 1519, os dois trabalharam em Lucerna na pintura do interior da casa da família Hertenstein, demolida em 1825. E foi, provavelmente, por esta ocasião que Holbein pintou a Virgem com o Menino entre Santos e Anjos, hoje em Lisboa devido a muitas peripécias que não me cabe aqui contar.

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Retábulo do martírio de S. Sebastião, Hans Holbein, o Velho, 1516, Alte Pinakothek, Munique

Holbein morreu em 1524. A sua carreira foi marcada pelas mudanças que se deram na Europa dos séculos XV e XVI, e testemunha a evolução da arte nesta altura. Assim, se a sua primeira pintura se enquadra perfeitamente na escola gótica internacional, com influência flamenga, as suas últimas obras denotam já um esforço no sentido de mudança para uma nova linguagem pictórica. A Virgem com o Menino entre Santos e Anjos aparece-nos como uma síntese: o gosto pelo detalhe patente nas jóias e vestidos das santas remete-nos para a sua influência flamenga, mas o belo arco triunfal que enquadra a cena, decorado com grotescos, tondi e mascarões, pertence já ao Renascimento triunfante.

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Virgem com o Menino entre Santos e Anjos, Hans Holbein, o Velho, 1519, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Maria Teresa Oliveira

Referências e imagens:

BENESCH, Otto, La Peinture Allemande. De Dürer à Holbein. Génova: Skira, 1966.

BUTTS, Barbara, HENDRIX, Lee, Painting on Light: Drawings and Stained Glass in the Age of Durer and Holbein. Los Angeles: Getty Publications, 2000.

CUNEO, Pia F., “The Basilica Cycle of Saint Katherine’s Convent: Art and Female Community in Early-Renaissance Augsburg”, Woman’s Art Journal, Vol. 19, No. 1 (Primavera- Verão, 1998), pp. 21-25.

FIDALGO, Maria Helena Hans Holbein (O Velho)”. In Grão Vasco e a Pintura Europeia do Renascimento. Lisboa: CNPCDP, 1992.

FLAMAND, Elie-Charles, La Renaissance, vol. III. Lausanne: Rencontre, 1966.

HUNT, Leigh, “Hans Holbein.” in The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. Nova Iorque: Robert Appleton Company, 1910.  <http://www.newadvent.org/cathen/07385a.htm&gt;. FLAMAND, 1966, p. 165.

MÜLLER, Christian [et al], Hans Holbein the Younger, The Basel Years 1515-1532. Munique: Prestel, 2006.

https://www.google.com/culturalinstitute/beta/asset/death-of-the-virgin/UgErDNwWhtljnQ

https://en.wikipedia.org/wiki/Hans_Holbein_the_Elder

https://www.wikiart.org/en/martin-schongauer

https://en.wikipedia.org/wiki/Grey_Passion

https://de.wikipedia.org/wiki/Staatsgalerie_Altdeutsche_Meister

https://sammlung.staedelmuseum.de/de/werk/bildnis-eines-angehoerigen-der-augsburger-familie-weiss

 

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