Famílias de artistas: As irmãs Anguissola I

Sofonisba, Elena, Lucia, Minerva, Europa e Anna Maria foram as seis filhas de Amilcare Anguissola e Bianca Ponzoni. Ao contrário da maior parte das mulheres artistas que a História nos legou, Sofonisba e as irmãs não nasceram no seio de uma família de pintores, mas pertenciam antes à baixa nobreza de Cremona. O seu pai, que reclamava uma ascendência cartaginesa, procurou dar-lhes a melhor educação que podia, possibilitando que investissem nos seus talentos e que se destacassem.

No entanto, como grande parte das artistas de outros tempos, a sua obra foi sendo esquecida pela História, perdida ou atribuída a outros pintores, predominando o preconceito de que a arte feita por mulheres não era digna de ser exposta ou estudada, e que semelhante qualidade não podia vir senão da obra dos grandes mestres (todos eles homens).

Sofonisba Anguissola (c. 1530’s – 1625) não foi excepção. Felizmente, ao contrário das suas irmãs, cuja obra é muito menos numerosa, porque na maior parte desconhecida (pelo que as relegarei para um segundo post), foi “redescoberta” no século passado, e novos estudos vieram devolver-lhe obras que tinham sido “dadas” a Correggio, Ticiano ou Alonzo Sanchez Coelho. Sofonisba, de facto, foi uma das poucas mulheres que Vasari agraciou com elogios, nas suas Vite e ele não foi o único escritor a fazê-lo.

Com Elena, nascida aproximadamente um ano depois dela, estudou com os pintores lombardos Bernardino Campi e Bernardino Gatti e depois esteve em Roma, onde conheceu Miguel Ângelo, para quem terá feito o desenho de um rapaz a chorar, que muito o impressionou.

Sofonisba_Anguissola_-_Asdrubale_Bitten_by_a_Crawfish_-_WGA00698

Rapaz mordido por um lagostim, Sofonisba Anguissola, c. 1554, Museo di Capodimonte, Nápoles

Auto-retrato com espelho, c. 1556, Museum of Fine Arts, Boston e Retrato de Elena Anguissola, 1551, City Art Gallery de Southampton.

Elena entrou para o convento dominicano de San Vincenzo em Mântua, com o nome de Suor Minerva, e não se conhece nenhuma obra sua. Sabe-se que em 1585 ainda era viva, mas não se conhece a data da sua morte. Já Sofonisba continuou a ganhar fama com os seus auto-retratos e retratos da família, plenos de vivacidade e génio. Uma das suas obras mais famosas é aquela que serve de imagem de destaque neste post, O jogo de xadrez, no qual estão representadas três das suas irmãs. Lucia, olhando, triunfante mas serena, para o observador, vence Minerva numa jogada, despoletando um gesto de surpresa por parte desta. Ao centro a mais nova, Europa, ri-se do desfecho do jogo sob o olhar atento de uma criada. Três irmãs de educação elevada, ocupadas nas actividades intelectuais e de lazer das altas classes e representadas com uma vivacidade que fez Vasari, que viu esta pintura, garantir aos seus leitores que, a qualquer momento, as figuras começariam a falar, o que não era um pequeno elogio para uma mulher artista.

thechessgame1555sofonsbaanguissola

O jogo de xadrez, Sofonisba Anguissola, 1555, Muzeum Narodowe w Poznaniu

A fama de Sofonisba chegou aos ouvidos de Filipe II de Espanha e, em 1559, o monarca pediu que ela se tornasse dama de companhia da sua terceira mulher, Isabel de Valois, e que lhe ensinasse a sua arte. Assim, Sofonisba foi para a corte espanhola e lá viveu até à morte da sua aluna, e depois como professora das infantas suas filhas, durante 14 anos.

Não era ela a pintora oficial da corte, nem recebia dinheiro pelos inúmeros retratos que fazia (mas prendas, como uma dama de companhia), pois era mulher e nobre, dois factores que se opunham à sua profissionalização como artista. Mas foi exactamente a sua nobreza, que a impedia de ser pintora profissional, que lhe permitiu aceder a estes círculos e ter as melhores condições para pintar, o que não deixa de ser irónico. Os pintores oficiais de Filipe II, entre os quais António Moro e Sanchéz Coello, copiaram a sua obra, e muitos dos seus retratos, nos quais se destacam os do monarca, da sua mulher e filhas, só se conhecem, exactamente, por causa destas cópias, feitas para membros da estirpe dos Habsburgo e difundidas um pouco por toda a Europa.

A rainha Isabel de Valois, Pantoja de La Cruz (cópia de um retrato perdido feito por Sofonisba Anguissola), c.1605, Filipe II de Espanha, Sofonisba Anguissola, 1573, Museo del Prado, Madrid

Sofonisba casou duas vezes. A primeira por arranjo de Filipe II, após a morte de Isabel de Valois, a segunda por vontade própria. Viveu quase até aos 100 anos, acontecimento raro na sua época, e, já velha, foi visitada pelo jovem Antoon van Dyck, um dos grandes pintores de Seiscentos, que a esboçou, e que muito se espantou com a sua lucidez e inteligência. A carta que escreveu a relatar a sua visita sobrevive ainda, datada de 12 de Julho de 1624, um ano antes da morte da pintora. Sofonisba tinha, então, 96 anos e, como van Dyck escreveu, já praticamente perdera a vista. No entanto, mantinha-se muito lúcida, cortês e com boa memória e gostava que lhe pusessem pinturas à frente para que, aproximando-as do nariz, as conseguisse ver um pouco.

Auto-retrato de Sofonisba, c. 1610, Gottfried Keller Collection, Bern e Carta de Van Dyck, 12 de Julho de 1624, British Museum, Londres

Van Dyck pintaria, posteriormente, um retrato da velha Sofonisba, provavelmente inspirado no esboço, do qual só sobra um fragmento. Já não era a jovem que se retratou tantas vezes, mas não deixa de ser uma figura imponente e certamente cheia de sabedoria de muitos anos de vida. Da sua mão, sobreviveram numerosos auto-retratos que nos deixam não só a visão que tinha de si, mas sobretudo aquela que queria que dela tivessem, de acordo com os padrões da época. Uma mulher sóbria, virtuosa, virgem (como assina sempre antes de casar) e modesta, mas culta e talentosa.

Auto-retrato ao cavalete, Sofonisba Anguissola, 1556, Łańcut Castle, Sofonisba Anguissola, Antoon van Dyck, 1624, Knole, Kent

 

Maria Teresa Oliveira

Referências e imagens:

GARRARD, Mary D. “Here’s Looking at Me: Sofonisba Anguissola and the Problem of the Woman Artist”. Renaissance Quarterly, Vol. 47, no. 3 (Outono, 1994), pp. 556-622.

JACOBS, Frederika H., “Woman’s Capacity to Create: The Unusual Case of Sofonisba Anguissola”. Renaissance Quarterly, Vol. 47, no. 1 (Primavera, 1994), pp. 74-101.

PEREIRA, Fernando António Baptista, “Pinturas de Capriccioso Indegno de Sofonisba Anguissola e Lavinia Fontana”. Arte e género. Lisboa, 2012, pp. 12-28.

VICENTE, Filipa Lowndes, A arte sem história. Mulheres e cultura artística (séculos XVI-XX). Lisboa: Babel, 2012.

https://en.wikipedia.org/wiki/Sofonisba_Anguissola

https://it.wikipedia.org/wiki/Elena_Anguissola

https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/elisabeth-of-valois-holding-a-portrait-of-philip/6a414693-46ab-4617-b3e5-59e061fcc165?searchid=9b353db7-827f-8179-7e8f-bcc30a541941

https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/philip-ii/7d7280d6-5603-488a-8521-933acc357d7a?searchid=7e41794c-da8a-7352-0d16-02cce268595b

https://www.khanacademy.org/humanities/renaissance-reformation/mannerism1/a/sofonisba-anguissola

http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=708551&partId=1

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s