Manet e as Mulheres III

E para acabar esta pequena série de posts dedicados às mulheres que Manet pintou, foquemo-nos na protagonista de algumas das suas mais famosas obras: Victorine Meurent. Não me vou debruçar sobre o significado das duas pinturas mais famosas em que Victorine Meurent aparece, o Déjeuner sur l’herbe e a Olympia, na forma como o seu corpo nu, real, não alegórico, gerou escândalo, ou como o seu olhar directo foi interpretado ao longo do tempo. Queria, antes, como já fiz com Berthe Morisot, apresentar Victorine. Todos, certamente, já se devem ter cruzado, folheando qualquer História da Arte, com a sua face, com o seu corpo desnudo. No entanto, poucos saberão que também ela foi artista.

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Victorine Meurent, Édouard Manet, c. 1862, Museum of Fine Arts, Boston

Nascida em Paris, no seio de uma família de artesãos, Victorine começou a posar como modelo aos 16 anos, no atelier de Thomas Couture. Foi talvez aí que conheceu Manet, aprendiz de Couture, tornando-se, durante a década de 1860, a sua modelo preferida. Em nove telas, foi transformada pelo pintor em cantora de rua, toureira, dama, prostituta, numa performance contínua, que Baptista Pereira comparou com a obra da fotógrafa americana Cindy Sherman que se metamorfoseou em diversas personagens ao longo da sua carreira, a começar com a obra Untitled Film Stills (1977–80). Em 69 fotografias a preto e branco, Sherman representou-se como as personagens estereotipadas dos filmes de Hollywood das décadas de 1950 e 1960, ironizando e criticando a representação das mulheres pelo cinema, um pouco como Manet representou Victorine em diversas cenas que, aludindo à pintura antiga, retratavam a vida contemporânea, “reinventando” a história da pintura, como Sherman “reinventou” a história do cinema. No entanto, parece-me que entre as duas há uma diferença gritante: Sherman foi a autora da sua própria obra, Victorine apenas um dos objectos a partir dos quais Manet se expressou.

A cantora de rua, Édouard Manet, c. 1862, Museum of Fine Arts, Boston e Mlle. V. em fato de “Espada”, 1862, The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

A facilidade com que Victorine posava despida levou a que a sua personalidade fosse depreciada pela História, focada apenas na sua nudez e alegada devassidão, no seu corpo considerado imperfeito, porque pequeno e magro, atributos pouco atractivos de acordo com o gosto da época, e a que a sua história fosse ignorada.

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Olympia, Édouard Manet, 1863, Musée D’Orsay, Paris

Victorine, contudo, teve algum reconhecimento na sua época. Por volta de 1875, frequentava a Académie Julien, uma das academias de pintura privadas que aceitavam mulheres, excluídas, devido ao seu sexo, da mais prestigiada École des Beaux-Arts parisiense. Em 1876, expôs no Salon, ao mesmo tempo que uma obra submetida por Manet era rejeitada. Expôs, novamente, em 1879, 1885 e 1904. Em 1903, já Manet morrera, com sífilis, foi eleita membro da Société des Artistes Français. Em 1906, vivia nos subúrbios de Paris, em Colombes, e continuava a pintar e a dar aulas de música. Infelizmente, a sua obra desapareceu, à excepção do Domingo de Ramos, pintura recuperada em 2004 e hoje no museu municipal de Colombes.

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Domingo de Ramos, Victorine Meurent, c. 1880, Musée Municipal d’Art et d’Histoire de Colombes

Victorine morreu com 83 anos, ao contrário do que as más línguas, durante muito tempo, acreditaram, dizendo que Victorine era uma prostituta alcoólica que morrera nova, vítima dos seus vícios. Com cerca de 40 anos, foi retratada por Norbert Goeneutte, que nos mostrou uma mulher muito diferente da que Manet e outros artistas, como Alfred Stevens, pintaram, de beleza já desvanecida… Todavia, terão todas as mulheres retratadas de ser belas?

Victorine Meurent: A esfinge parisiense, Alfred Stevens, 1870, San Diego Museum of Art e Mulher da guitarra, Norbert Goeneutte, c. 1884, Musée de Vernon

Manet retratou, ainda, uma outra mulher pintora, a sua única aluna: Eva Gonzalès. Curiosamente, também ela tinha uma irmã pintora, como Berthe Morisot, chamada Jeanne, que lhe serviu de modelo em muitas pinturas.

Embora a amizade que manteve com o seu mestre tenha sido benéfica para a formação e reconhecimento de Eva, também acabou por se tornar um obstáculo para que ela fosse reconhecida enquanto “verdadeira” artista, constantemente comparada (em geral para pior) com Manet, reduzida ao papel de discípula que imita ou adapta o que aprendeu, sem originalidade ou individualidade. Até no retrato que fez dela, Manet a representou a pintar uma natureza-morta da sua autoria, e não uma obra de arte própria.

Infelizmente, a carreira de Eva Gonzalès foi curta: morreu aos 34 anos a dar à luz. A sua obra, no entanto, é numerosa, repleta de belas cenas do quotidiano e da intimidade feminina.

Retrato de Eva Gonzalès, Édouard Manet, 1870, The National Gallery, Londres e Mulher a acordar (Jeanne Gonzalès como modelo), Eva Gonzalès, c. 1876, Kunsthalle, Bremen

Muitas foram as mulheres que, sendo pintoras, são hoje mais conhecidas pelos seus retratos e corpos nus, expostos em centenas de museus e galerias, do que pela obra que fizeram.  Outros nomes que gostaria de mencionar são Suzanne Valadon, modelo de Renoir e de Toulouse-Lautrec, mas também pintora, sobretudo (e ironicamente?) de mulheres nuas; Gwen John, que posou para Rodin e foi sua amante; Georgiana Burne-Jones e Elizabeth Siddal, respectivamente mulheres dos pré-rafaelitas Edward Burne-Jones e Dante Gabriel Rossetti, ou Laura Theresa Alma-Tadema, mulher de Lawrence Alma-Tadema, o pintor de temas clássicos.

Porque é que isto acontece? Será, simplesmente, e como tantos argumentam, falta de talento? Menor qualidade? O facto de a da arte ter sido feita e observada por um olhar masculino? Mais uma vez, vêem-me à mente várias perguntas: de que modo é que estas mulheres saíram prejudicadas, na sua individualidade enquanto artistas, por serem mulheres, amantes, ou modelos de pintores? E de que forma foram beneficiadas? Como retrataram os homens da sua vida e como é que eles, por sua vez, as representaram? E de que maneira é que se retrataram a si próprias em comparação com os retratos que outros fizeram delas? Quem eram? Como é que se viam, afinal?

Maria Teresa Oliveira

 

 

Referências e imagens:

Hadler, Mona, “Manet’s Woman with a Parrot of 1866”. Metropolitan Museum Journal, v. 7, 1973: http://www.metmuseum.org/art/metpublications/Manets_Woman_with_a_Parrot_of_1866_The_Metropolitan_Museum_Journal_v_7_1973

Tinterow, Gary, Lacambre, Geneviève, Manet/Velázquez: The French Taste for Spanish Painting. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 2003.

Main, V. R. “The naked truth”. The guardian, 03/10/2008: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2008/oct/03/women.manet

http://www.mfa.org/collections/object/victorine-meurent-32976

http://www.mfa.org/collections/object/street-singer-33971

http://www.metmuseum.org/art/collection/search/436945?sortBy=Relevance&ft=29.100.53&offset=0&rpp=20&pos=1

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