Manet e as Mulheres II

Edouard_Manet_-_The_Balcony_-_Google_Art_Project

A Varanda, 1868-1869, Musée D’Orsay, Paris

A Varanda é uma das mais famosas pinturas de Manet, realizada ao mesmo tempo que o seu famoso Déjeuner sur l’herbe. Sendo, na aparência, uma cena da vida burguesa perfeitamente normal, coincidente com o gosto da época, esta pintura é, numa segunda inspecção, uma obra muito pouco convencional para o seu tempo. Ao contrário daquela que é considerada a fonte de inspiração de Manet, as Majas na Varanda de Goya, não há, nesta pintura, nenhuma cumplicidade entre as personagens, nem uma história que se adivinhe. Os quatro protagonistas, todos eles do círculo íntimo de Manet, encontram-se desconexos, dispostos como meros adereços do pintor para serem usados, cada um perdido nos seus pensamentos e descritos, por vezes, mais sumariamente do que o grande jarro de flores que Manet pintou a um canto. Quase se poderia chamar a esta obra “uma natureza-morta feita de seres vivos”.

Outro ponto considerado controverso foi o duro contraste, marca inconfundível do pintor, entre o branco dos rostos e dos vestidos das senhoras e o fundo negro do quadro, que torna o interior da casa quase imperceptível e dilui qualquer tentativa de criar perspectiva. Este contraste apenas é quebrado pela cor berrante das ferragens da varanda e de alguns adereços, como a gravata, dando à pintura um aspecto “misterioso”, “provocador”, “discordante”, segundo a crítica da época. Um visitante chegou a clamar “Fechem as persianas”, tal o desconforto que sentiu com a pintura…

Até uma das suas protagonistas disse não se reconhecer no seu retrato. Que se parecia mais com uma femme fatale do que consigo própria. E é justamente dela que eu quero falar hoje. Da mulher de olhar ausente, que está sentada à varanda, acompanhada pela violinista Fanny Claus, grande amiga de Suzane Leenhoff, pelo pintor Antoine Guillemet e por Léon Leenhoff, o enteado de Manet de quem falei anteriormente. Trata-se de Berthe Morisot, uma das grandes figuras femininas do impressionismo, cunhada de Édouard Manet por casamento com o seu irmão mais novo, Eugène. Esta foi a primeira vez que ele a representou, mas não a última.

Uma das versões de As majas à Varanda, atribuída a Goya, c. 1800-1810, The Metropolitan e pormenor do rosto de Berthe Morisot

Dois retratos de Berthe Morisot feitos por Manet, o primeiro de 1870, Rhode Island School of Design Museum, o segundo de 1872, Musée D’Orsay, Paris

Nascida numa família burguesa, sobrinha-bisneta de Jean-Honoré Fragonard, um dos grandes pintores do século XVIII, Morisot teve, com as suas irmãs Yves e Edma, a educação artística considerada apropriada para uma menina do seu estatuto. Encorajada pelo pai a prosseguir seriamente os seus estudos, começou a expor nos Salões parisienses em 1864, com críticas sempre favoráveis.

A família é um tema recorrente na obra desta artista a começar pelas irmãs, especialmente Edma, de quem era muito próxima. A própria Edma Morisot era pintora, tendo estudado com a irmã sob a orientação de Joseph Guichard, aluno de Ingres e, mais tarde, com Camille Corot, o grande paisagista, que as iria ensinar a pintar ao ar livre. Ao casar, Edma acabou por abdicar da sua carreira enquanto pintora, seguindo o destino de tantas mulheres que, então, se viam divididas entre a carreira e a família, No entanto, continuou, com as suas filhas, a ser presença assídua nas pinturas de Berthe.

O berço (retrato de Edma Morisot e da sua filha Blanche), 1872, Musée D’Orsay, Paris e Retrato de Berthe Morisot por Edma Morisot, 1865, colecção privada

Também Berthe casou, com Eugène Manet, e também ela teve uma filha, Julie. Isso não a impediu, todavia, de continuar a frequentar os meios artísticos, expondo em todas as exposições impressionistas, excepto quando engravidou. As duas irmãs conheceram Manet em 1866, pouco antes de ele retratar Berthe na Varanda. A correspondência entre os dois mostra como se admiravam e estimavam mutuamente, e que se influenciavam um ao outro, mesmo que em aspectos subtis. Por exemplo, o tema da criança de costas, a observar por entre grades algo que nós, enquanto espectadores, não conseguimos ver por completo, é utilizado tanto por Moristo como por Manet, em anos seguidos.

Mulher e criança na Varanda (Yves Morisot, outra irmã de Berthe, e a sua filha), Berthe Morisot, 1872, Nova Iorque, e Gare Saint-Lazare, Édouard Manet, 1873, National Gallery of Art, Washington D.C.

Como Manet, também Berthe pintou a sua família, no caso o marido e a filha. Julie e Berthe seriam, ainda, modelos para outros artistas, como Renoir. Infelizmente, Julie perdeu ambos os pais no espaço de três anos, ficando aos 16 anos sob a tutela de Stéphane Mallarmé, o poeta amigo da família. Rodeada pela arte desde a infância, a filha de Berthe deixou-nos o seu Diário, escrito na adolescência, no qual relata como foi crescer com os impressionistas. Ela própria casaria com um pintor, Ernest Rouart, igualmente nascido no seio de uma família de artistas. Também ele a retratou a pintar.

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Eugène e Julie Manet pintados por Berthe Morisot, 1883, colecção privada

Julie Manet retratada por Pierre-Auguste Renoir, 1894, Musée Marmottan Monet, Paris e retratada pelo seu marido, Ernest Rouart, colecção privada

O meu breve périplo pela vida de Berthe Morisot levou-me por caminhos diferentes daqueles que o Professor seguiu. O texto já vai longo, mas deixo aqui estas “sementes”: Qual o papel da família na vida do artista? Qual as diferenças na forma de a representar, conforme o artista seja homem ou mulher? O que podemos concluir se compararmos a obra de Manet sobre a mulher e a obra de Morisot sobre o marido? O que significa crescer entre artistas, ter a nossa imagem imortalizada pelos pincéis de tantos amigos? Como se processa a amizade entre os artistas? De que modo se influenciam? E, se Julie pintava, onde está a obra dela?

Maria Teresa Oliveira

 

Referências e Imagens:

DAYEZ, Anne, HOOG, Michel, MOFFET, Charles S., Impressionism: a century exhibition. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 1974, pp. 120-123.

http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works-in-focus/search/commentaire_id/the-balcony-7199.html

http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works-in-focus/search/commentaire_id/julie-manet-9742.html?no_cache=1

http://www.telerama.fr/scenes/les-rouart-le-virus-de-la-peinture-de-pere-en-fils,122605.php

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Balcony_(painting)

http://www.metmuseum.org/art/collection/search/436149

https://en.wikipedia.org/wiki/Berthe_Morisot

https://en.wikipedia.org/wiki/Julie_Manet

https://en.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Manet

https://en.wikipedia.org/wiki/Edma_Morisot

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Railway

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