Manet e as Mulheres I

Ontem ocorreu a última conferência no âmbito do curso Masculino || Feminino, promovido pela Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, em Lisboa. Foi a quinta de cinco sessões ministradas por Fernando António Baptista Pereira, professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, nas áreas de História da Arte, Museologia e Ciências de Conservação, Restauro e Produção de Arte Contemporânea, e actualmente adjunto do Ministro da Cultura para o sector Museus e Património.

Durante as últimas cinco semanas, viajou-se entre o século XVI e o século XX, abordando o binómio masculino/feminino na arte a partir de diferentes pontos de vista: Sofonisba Anguissola e Lavínia Fontana, mulheres pintoras num mundo de homens; a relação pai-filha entre Baltazar Gomes Figueira e Josefa de Óbidos; a crítica da arte feita por Diderot, a obra de Elizabeth Vigée Lebrun e a relação de um casal de artistas, exemplificada por Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva. A última sessão foi dedicada a Édouard Manet e às várias mulheres que lhe serviram de modelo com o título, que aqui reproduzo “Manet e as Mulheres”.

Muitas foram as ideias que a partir da visualização destas obras fui desenvolvendo, e que se vieram juntar, e nalguns casos adaptar, às muitas outras que me têm surgido para partilhar convosco. Resolvi começar por mostrar um pouco daquilo que aprendi sobre “anet e as mulheres, dividindo estas reflexões em várias posts.

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Mme. Manet na Estufa, 1879, Nasjonalmuseet, Noruega

A primeira figura de quem se falou, Suzanne Leenhoff, foi a mulher de Manet. Pianista talentosa, de nacionalidade holandesa, Leenhoff fora contratada pelo pai do pintor, Auguste Manet, como professora de piano para os seus filhos. Com pouca diferença de idades, Édouard e ela apaixonaram-se, e tiveram um longo namoro secreto, que duraria cerca de dez anos. Casaram em 1863, após a morte de Auguste Manet, com quem Suzanne também teve uma relação. É ela que está representada nestas duas pinturas.

A Ninfa Surpreendida, 1861, Museo Nacional de Belas Artes, Buenos Aires e Mme Édouard Manet no Jardin de Bellevue, 1880, The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

As diferenças entre as duas pinturas são óbvias. A primeira, feita antes do casamento dos dois, apresenta-nos uma mulher nua, surpreendida por um olhar masculino, figura tão ao gosto da pintura antiga, preenchida por ninfas, deusas e Susanas apanhadas a banhar-se ou nuas (e não será o tema uma alusão ao nome da modelo, Suzanne, como apontam alguns autores?). Essas figuras, no entanto, eram alegóricas, não pessoas concretas, como as mulheres desnudas que Manet pintou e que tanto escândalo causaram, e esse é um dos exemplos da provocação da arte deste pintor, que pega nos temas tradicionais e os transporta para o seu tempo.

A segunda pintura é o último dos seis retratos que Manet fez de Suzanne, após o casamento dos dois. Uma mulher casada, e portanto assumindo um novo estado de respeitabilidade, Suzanna Manet já não é representada nua, mas vestida, na pincelada rápida e sumária, tão típica do seu marido e já distante da figuração mais “tradicional” da Ninfa de 1861. Vários foram os artistas que pintaram as suas mulheres ou amantes, Rubens é outro exemplo. Mas não deixa de haver alguma ironia na diferença entre a figura nua da amante e a da esposa que, afinal, são a mesma pessoa.

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A leitura, 1865-1873, Musée D’Orsay, Paris

Em 1852, Suzanne deu à luz um filho de pai incógnito, Léon Leenhoff. Nunca se soube se esta criança era de Auguste Manet ou de Édouard Manet. No entanto, depois de Édouard ter casado com Suzanne, Léon tornou-se seu enteado, e foi, como a sua mãe, um tema recorrente na pintura do artista. A leitura é uma das obras em que ele aparece, por trás da mãe, concentrado no seu livro, quase um “quadro dentro de um quadro”, nas palavras de Fernando Baptista Pereira, e é interessante vê-lo crescer ao longo da obra de Manet. Em Portugal, na Fundação Calouste Gulbenkian, temos uma pintura que o representa, o famoso quadro As bolas de sabão.

As bolas de sabão, 1867 e O Rapaz das Cerejas, c. 1853, Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

É um tema da vida contemporânea, que remete, porém, para os retratos antigos, devido à presença do muro em primeiro plano que, como Baptista Pereira lembrou, serviam muitas vezes de apoio aos retratados. O fundo escuro, sumário, e as cores sóbrias lembram as obras seiscentistas de pintores como Frans Hals ou Murillo. As bolas de sabão foi comparada com O rapaz das cerejas, outra obra de Manet que parece citar os holandeses e espanhóis do século XVII. As duas pinturas aludem à transitoriedade da vida, a de 1853 de uma forma ainda mais brutal se soubermos que o seu modelo, Alexandre, um ajudante de Manet, se suicidaria pouco depois, no atelier do pintor.

Após a morte de Manet, em 1883, Suzanne e Léon fizeram os possíveis para preservar a sua obra, reunindo os papéis, agendas e documentação do artista, fotografando e inventariando as pinturas que tinha no seu atelier. A maior parte desta documentação encontra-se, actualmente, na Bibliothèque Nationale de França, a obra de Manet um pouco por todo o mundo.

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Mme. Manet e Léon Leenhoff, 1871, Clark Art Institute, Williamstown, Massachusetts e Mme. Manet ao piano, 1867-1868, Musée D’Orsay, Paris

Suzanne Manet morreu em 1906, Léon em 1927. Os dois foram, como tantos outros esposos, filhos e familiares de artistas, imortalizados pelas obras destes, que os souberam representar na sua intimidade, e a quem acompanharam ao longo das suas carreiras. No século XIX, em que o quotidiano urbano se torna um tema de eleição da arte e a família burguesa ganha uma nova importância na sociedade, estas representações parecem-se multiplicar.

Brevemente, pretendo falar de outras famílias dos artistas (e também de famílias de artistas) e de representações das mesmas. Por agora, deixo-vos este primeiro texto. No seguinte falarei de outra mulher que Manet pintou, a pintora Berthe Morisot, sua cunhada.

Maria Teresa Oliveira

Referências e imagens:

https://en.wikipedia.org/wiki/Suzanne_Manet

http://www.metmuseum.org/art/collection/search/438002?sortBy=Relevance&who=Manet%2c+%c3%89douard%24%c3%89douard+Manet&ft=*&offset=0&rpp=100&pos=25

https://gulbenkian.pt/museu/works_museu/as-bolas-de-sabao/

https://gulbenkian.pt/museu/works_museu/o-rapaz-das-cerejas/

https://fr.wikipedia.org/wiki/L%C3%A9on_Koelin-Leenhoff

http://www.musee-orsay.fr/en/collections/dossier-manet/chronology.html

 

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